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quarta-feira, 13 de junho de 2018

Jack e Margareth - Conto 9 (EM DESENVOLVIMENTO)

A manhã parece bela, os raios de Sol batem na cortina e são calorosos, esquentam o piso de madeira do quarto. Tente imaginar casais acordando e abrindo suas janelas para, ao fim, bocejar para seus jardins frontais um macio bom-dia. Em seguida imagine um selinho entre eles, sim, mesmo com aquele bafo de superficialidade caloroso. Por ultimo, imagine o café da manhã pelando sobre a mesa e o marido dando comida pro cachorro chamado Buster (menos americano impossível). Agora volte a realidade.

Jack acorda assustado, caindo da cama, com o barulho de um passaro batendo na janela de cabeca e tudo. O seu sono geralmente não é leve, culpa da falta da sobriedade, mas dessa vez acordou facilmente e pior, querendo alguma coisa que ele só saberia melhor mais tarde. Descendo as escadas, o perfume de rosas de Margareth compete com o cheiro do café quente, qual será o mais cheiroso? Uma curiosidade sobre isso é que sempre que sentir o cheiro de rosas pela casa é quase certeza que as unhas dela estarão pintadas de vermelho. Vai entender.

Sao 6:30. Margareth, pontualmente como sempre, acaba de passar a chave na porta, conta ate 3 e sai em direcao ao metro para ir para a Consultoria de Estatistica. Nao fica muito longe, mas ela faz questao de nao chegar suada e muito menos atrasada (ela garante que não arranquem a calculadora de suas mãos), entao pega a conducao. No momento que ela confere se a porta esta trancada mesmo, Jack cria forcas para se levantar. Fique surpreso, e' uma raridade que ele acorde cedo, alguma coisa realmente nao esta certa.

Jack desce as escadas, cambaleando e quase tropecando no seu roupao, e vai para a cozinha. Sim, possivelmente ele e' uma das unicas pessoas que usam roupao que voce ira conhecer. A desculpa utilizada por ele para usa-lo sao os bolsos grandes que cabem facilmente tudo que ele precisa: de um lado um maco de cigarro e um isqueiro e do outro um papel e um lapis - nunca se sabe quando vira a inspiracao. 

Depois de duas xicaras de cafe bem forte e sem acucar nem nada, Jack vai em direcao a sala e joga seu roupao no sofa, veste seu casaco grande preferido e abotoa no meio. Pronto, um metido a Sherlock Holmes. Margareth sempre gostou desse casaco, mas depois comecou a odia-lo ja que Jack sempre deixava o casaco jogado em qualquer canto da casa, mas nunca no armario. Depois de uns meses, ela resolveu ate' colocar um gancho para que ele pendurasse, bem ao lado da port. Claro que nao adiantou nada. Serve para pendurar as chaves da porta.

Mesmo que o casaco fique muitas vezes jogado pela sala, esse e' o comodo mais agradavel de todos. As paredes possuem quadros suaves escolhidos a dedo por Margareth, a decoracao nao chama muito a atencao e e' rustica. Os dois sofas sao macios e nao ocupam muito espaco, o suficiente para se sentir confortavel. Mas a melhor sao as estantes com livros, a pequena biblioteca dos dois, dividida perfeitamente. Do lado direito os livros de Margareth: muitos sobre estatistica, materias diversas, alguns classicos como Mr Dalloway, A Redoma de Vidro, As Horas e Moby Dick (esse fica bem ao meio, dividindo os lados de cada um). Do lado esquerdo os de Jack: aqui encontrara de tudo, livros de receitas, classicos brasileiros,  livros para aprender a jogar poker e muita poesia. So' nao econtrara muito sobre poesia mimeografa do lado esquerdo, mas se quiser, olhe a estante da direita, provavelmente deve ter. Os dois lados de completam.

Vamos sair dessa casa, o que importa no momento está lá fora em algum lugar, algo que espera Jack e que nem mesmo ele realmente sabe o que é. Sendo assim, Jack abre a porta e sai com um pouco de pressa depois de trancar a porta.
Ele desce a rua, vira a direita, segue mais um pouco, tropeça em alguma pedra e anda entre o mato e um resquício de calçada. - Essa cidade precisa de mais cuidado, diz Jack tentando arrancar os pique-piques que grudaram na sua calça. Sua aparência é horrível, seu olhos estão avermelhados, seu rosto está pálido ao ponto de que qualquer pessoa que o olhasse, duvidaria se ele realmente está ali ou não (nenhuma novidade até agora). Agora, sobre o movimento na rua, preciso dizer que o local onde Jack está parece mais um zoológico do que uma cidade: girafas com cabeças de outdoors, raposas na frente das lojas sorrindo e prontas para te entregarem um panfleto que você com certeza não leria, hienas cheirando lixeiras em busca do almoço, ursos engravatados furiosos saindo de escritórios, brigas de trânsito entre gnus e até mesmo um guaxinim pilantra que acabara de roubar alguém, provavelmente. Interprete do jeito que quiser.
Jack não se incomoda tanto com isso, resolve acender um cigarro para entreter a boca e não inventar de dar um gole no cantil com pinga que guarda no bolso secreto do casaco. Ao entrar no parque, ele nota a senhorinha que sempre está sentada no terceiro banco, conhecida por velha louca por muitos, Jack inventou que seu nome é Clotilde. - Impressionante como a vó Clotilde sempre está sentadinha ali, pelo menos os pombos a fazem companhia, diz Jack esfregando os olhos para tentar enxergar direito e soltando a fumaça devagar, foi-se a última tragada do cigarro.
Saindo do parque pela entrada menos movimentada, Jack diminui o passo, alguma coisa não tinha caído muito bem, provavelmente culpa de alguma madrugada a qual ele perdeu o controle do que ingeriu. Ao atravessar a rua, ele quase provoca um acidente, mas nem se assusta realmente, estava se sentindo um pouco tonto - Quase certeza que não tinha um carro nessa pista. Ao chegar perto do poste da outra rua, Jack ouve os piores sons que se espalham por toda parte, descendo até seu estômago, são portas das lojas se debatendo, o ritmo de pensamentos dos andantes que já não aguentam mais trabalhar, mulheres gritando - Compro ouro! Compro ouro!, algumas crianças sentados no Sol quente junto com cartazes e com as mãos estendidas.
Coração acelerado, Jack se joga em um beco fedido que parece vazio, foge de tudo o que da e se apoia na parede até voltar a si mesmo novamente. - Onde eu estive com a cabeça? Me senti dentro de um círculo, preciso de um gole dessa pinga, e logo. Quando a bebida já arranhava sua garganta, Jack sente algo passando pelas suas pernas, mas não liga tanto. Ele agora começa a andar em direção ao final do beco, enquanto tampa o cantil. - São apenas algumas quadras para voltar para casa.
Andando com calma e passando pelos caminhos menos movimentados e consequentemente mais escuros, Jack da uma olhada baixa e vê que algo o acompanha e sem nem pensar duas vezes, aproveita para falar qualquer coisa que vem a mente, basta um par de orelhas para Jack nunca mais se calar, - Não quero me sentir sozinho, não quero, hoje não. Às vezes procuro ver poesia em tudo e isso muitas vezes me conforta. Hoje isso não está sendo o bastante. Você me entende? Jack não sabe se está alucinando ou não, mas é quase certeza que há um tigre ao seu lado o acompanhando e olhando para frente. - Vou acreditar que você esteja aqui, eu não tenho muito a perder e me parece que você não irá me devorar ou algo assim. Você está aqui e parece também ser um bom ouvinte, além do mais, parece mais humano do que muitos homens engravatados que vejo por aí nas notícias. O tigre continua olhando pra frente, mas suas orelhas acompanham as frases de Jack.  - O que realmente aconteceu para você estar aqui? Fui eu que saí de uma jaula quando entrei no beco ou estamos em uma nesse momento? Bom, tudo bem, talvez não haja resposta para isso. O tigre muda de lado e os dois atravessam a rua que não tem movimento algum, só mais alguns metros e estariam na porta de casa. - Sei silêncio me conforta pelo menos, devo estar o irritando com tantas perguntas e baboseiras... bem, penso se seria muito estranho se você falasse alguma coisa e me respondesse algo. O tigre não faz contato visual algum, apenas boceja enquanto Jack bate no ouvido para ver se ele não está entupido. - Pelo menos você me parece são, sabe mais para onde estou indo do que eu mesmo sei. Quanto mais andavam, Jack parecia escutar o começo de uma música, estava baixo mas ia aumentando, - Obrigado por me acompanhar, acho que eu não saberia voltar sozinho. Não estou me sentindo tão bem aqui, será que devo fugir de vez? Talvez tenha algum lugar me esperando, assim como senti que você me esperava aqui na rua. Sim, eu seria um covarde, mas talvez eu deva. Você ao menos poderia olhar alguma hora pra mim quando eu falo... A música começa a aumentar na cabeça de Jack, - Espere, isso é Carmina Burana? O tigre para e encara Jack por um tempo, é quase como se ja se conhecessem a muito tempo, dá um salto ligeiro e some no terreno ao lado da casa de Margareth. Cada listra na pele do animal parecia como uma resposta para as perguntas e pensamentos de Jack, mas que precisavam serem descodificadas de alguma forma. A música para logo quando Jack chega na porta de casa, - Não posso ter respostas para tudo, mas ao menos eu devia produzir perguntas mais interessantes, diz Jack olhando para o muro da casa ao lado, sem entender muito bem o que tinha acontecido. Poucos segundos depois Margareth chega perto de Jack, o viu conversando sozinho antes de chegar, - Jack, o que houve? Estava andando sozinho por aí de tarde? Margareth pergunta desconfiada. Jack, ao perceber que Margareth estava ao seu lado, se sentiu mais calmo, como se tivesse descoberto todo o código que pudesse estar escrito em um casaco de pele de tigre.
Jack destranca a porta e sorri com calma, - Eu não posso ir embora, sussurra baixinho sem que ela o consiga ouvir. - Jack, acho que você precisa de um antipsicótico, diz Margareth antes de sumir pela casa.


domingo, 10 de junho de 2018

Jack e Margareth - Conto 8

Jack olhou seu relógio velho para conferir os ponteiros, 8:30, ja tinha passado da hora de beber alguma coisa para esquecer os caretas da televisão. Levantou-se em direção a cozinha e se deparou com Margareth. Ele a pegou em um momento que estava longe, pensativa. Não estava nesse planeta. Possivelmente Júpiter ou Saturno, quem sabe até Netuno, seu planeta preferido.

Ela estava em uma viagem por milhares de pensamentos enquanto sentada na mesa da cozinha, que estava mal organizada como o costume. É fato que a casa só era limpa e arrumada por culpa de Margareth, porém a cozinha realmente não é um lugar que ela faca questão de entrar. Ao contrário dela, Jack sabia o que fazer com todos os utensílios e até mesmo saber a posição de cada um, mesmo com a tremenda bagunça. Ele faz questão da faca estar sempre bem amolada e o baú de bebidas sempre cheio. Porem, se tem um lugar que você não iria querer entrar, mesmo que fosse viciado em bebidas, é naquele cômodo. Ao menos que queira  tremendamente se deparar com o caos... todavia, não vejo motivos para isso. Prateleiras abertas, sal dentro da geladeira, o vidro de mel aberto, o arroz jogado no chão, a louça suja na pia...

Jack achou um tanto estranho o fato dela estar sentada logo naquela mesa, naquela cozinha, as 23:00 da noite. Ela podia estar na poltrona da sala ou no sofá marrom, que antes de ficar tão velho era preto, ou até mesmo escondida no quarto secreto dela. Entretanto, não, ela estava sentada na cadeira da mesa cinza, de frente para a porta, como se esperasse alguém e com a mão apoiando o rosto. O café já estava frio e o prato limpo a sua frente não tinha nada. Possivelmente ja estava sentada faz um bom tempo. 

Jack, pega um dos copos sujos, provavelmente de pinga, e enche de whisk. Depois pega um pão que, por incrivel que pareca, nao estava jogado em qualquer lugar, e começa a fazer um sanduíche com queijo. Em seguida vira-se para Margareth e solta uma piada de sempre para provocá-la.

 -É, Margareth, pensando longe, hum? Em algum namoradinho de escola de muito tempo atrás? 
Possivelmente se você abrisse um dos cadernos de rascunho de Jack, iria ver um turbilhão de palavras loucas, cinzas de cigarro, poemas mórbidos e muito barulho. Se tinha uma coisa que ele não sabia lidar, era o silêncio. E foi com isso que ela o respondeu. O silêncio naquela cozinha era tão completo que o barulho de Jack apoiando o copo na bancada podia ser ouvido pela casa inteira, assim como o tilintar dos cubos de gelo.

Margareth continuou parada por um tempo, como um fantasma, medusada. Depois que Jack terminou de fazer o sanduíche ela resolveu se mexer e olhou-o. Ele entendeu muito bem o que vira.

Jack ja havia passado por isso antes, de vez em quando presenciava Margareth nesse estado. Depois de algumas vezes, ele realmente deixou de acreditar que aquilo era normal. Era fato que o marrom claro do olhar dela sempre o fascinou, entretanto, uma hora percebeu que ia muito alem de uma bela cor. Seus olhos carregavam uma nostalgia morbida e era em momentos assim, quando pega de surpresa, nua, que você poderia notar estridentemente esse peso.

Jack nunca teve coragem de perguntar sobre isso, mas em um dia de Março conseguiu pistas. Estavam os dois na sala e ela falou que era aniversário da sua irmã. Não estava feliz, as palavras custaram a sair de sua boca, como se a garganta estivesse sendo arranhada. Depois prontamente mudou de assunto, mas não conseguiu disfarçar. As palavras já tinham se derramado, estavam encharcadas. .
A história completa ele descobriu depois de alguns meses quando leu um diário antigo de Margareth que estava jogado em uma das gavetas. Em sua defesa por ter o lido, o caderno azul não tinha cara nenhuma de um diário e muito menos estava realmente escondido. De qualquer forma, nem conseguiu ler tudo o que tinha. Porém, achara a resposta que precisava.

A verdade é que o olhar de Margareth nunca conseguiu esquecer os últimos minutos que pôde ter com a sua irmã mais nova. Ela havia chegado em casa mais tarde dessa vez. Ela passava tardes fora à procura de qualquer trabalho que fosse para ajudar a família - sua irmã e sua mãe que ja não conseguia mais sustentar a casa e muito menos a si mesma, vicios. Quando chegou em casa, jogou o casaco no sofá. Todas as luzes estavam desligadas menos a do banheiro. Algo parecia estranho. Havia água por todos os lados, sua irmã caída no chão. Ela havia atrasado 9 minutos do que de costume, apenas 9 minutos. Culpa, culpa, culpa, foram as palavras mais grifadas e repetidas nas paginas do caderno que Jack conseguiu ler.  As horas do acontecimento estavam cravadas nas páginas antigas, o grafite do lápis ainda podia ser sentido. Provavelmente daí havia surgido suas obsessões com horários. 

OUTRA VERSÃO:

A verdade é que o olhar de Margareth nunca conseguiu esquecer os últimos minutos que pôde ter com a sua irmã mais nova. Ela havia chegado em casa mais tarde dessa vez. Ela passava tardes fora à procura de qualquer trabalho que fosse para ajudar a família - sua pequena irmã de oito anos e sua mãe que já não conseguia mais sustentar a casa e muito menos a si mesma, vícios. Quando desceu da parada de ônibus e virou a esquina de casa, o barulho das sirenes era ensurdecedor. Algo estava estranho. A rua estava iluminada pelas luzes vermelhas intermitentes dos carros de polícia. Seu corpo se estremesseu, o arrepio no corpo e o amargo na boca. Acima de sua visão, a janela do apartamento. O cabo de hdmi enroscado no pescoço. Corpo pendular, ainda não retirado. Pedestres em volta da faixa tigrada que ainda estava sendo colocada. Alguém liga: "senhora, você gostaria de fazer a doação das córneas? Você pode fazer uma criança enchergar". Ali, sua irmã.   

Margarete havia atrasado 9 minutos do que de costume, apenas 9 minutos. Culpa, culpa, culpa, foram as palavras mais grifadas e repetidas nas páginas do caderno que Jack conseguiu ler.  Uma carta com poucas palavras e um desenho endereçada a irmã mais velha estava em cima da cama, enrolada por uma fita que a pequena irmã usava cotidianamente no cabelo. As horas do acontecimento estavam cravadas nas páginas antigas, o grafite do lápis ainda podia ser sentido, se você passasse o dedo. Provavelmente daí havia surgido suas obsessões com horários, pensou Jack. 


Depois de ler o que conseguiu aguentar, devolveu o caderno pro lugar onde estava, como se estivesse se livrando de algo que estava pelando em chamas. Jack nunca mais se enganou ou se assustou com o olhar dela nesses momentos de transe. Apenas imaginava no que deveria pensar. Talvez no peso de não ter conseguido chegar alguns segundos antes para segurá-la, quem sabe nas vestidos rosa que a garota sempre usava ou o perfume preferido dela... isso tudo ele se contentava em não saber as respostas. 

Jack, aproxima-se de Margareth, coloca o sanduíche no prato vazio dela e enche uma taça de seu melhor vinho para colocar ao lado do prato. Nesse momento ela acorda de vez, não esta mais petrificada e entao toma coragem de levar a taça de vinho a boca. Jack ja nao ria mais e queria mesmo era deixa-la quieta e calada, mas mesmo assim resolve sentar-se com ela. Porem, no momento em que ele puxa a cadeira para sentar, ela levanta-se com tudo e sai daquele lugar, some na escuridao da casa, provavelmente para dentro do seu quarto.  

-Pelo menos levou a taça com o vinho seco. Jack fala baixinho para si mesmo enquanto da mordidas no sanduíche da mesa. Em cada mordida ele imagina cada vez mais coisas sobre isso. Não eram ideias sobre como deveria ser o nome da irmã ou se isso havia acontecido sete horas da noite ou sabe-se lá qual outro horário... Jack não conseguia parar de pensar que o que ele via nos olhos de Margarete, nesses momentos de angustia quieta, era a queda eterna de sua própria irmã.

domingo, 27 de maio de 2018

Jack e Margareth - 7

Sexta-feira a noite. Geralmente a hora que aqueles casais cheirosos acabam de sair de suas casas para um jantar romântico. Muitos deles só buscando mais uma mascara para cobrir o desgaste emocional. Ninguem quer acreditar em traições. Também a hora em que alguns homens estão indo uivar na rua e vomitar todo o seu ódio pelo sistema e pelo pouco dinheiro que recebem do trabalho. Nessas horas, pense em Jack.
Hoje seria mais uma tarde comum, Margareth chegou do trabalho e ainda passou no mercado para comprar mais pó de café. Passaria então o resto da tarde lendo alguns livros e arrumando os poemas novos de Jack no site. Ela estava bem contente com os varios textos dele, era difícil para os dois enfrentarem os períodos de hiatos, o site nao pode parar. Enquanto isso, Jack estaria na rua, bebendo e discutindo as amarguras de tudo, nenhuma novidade. Chegaria bem tarde da madrugada e acordaria Margareth, que tem um sono bem leve, com os passos insóbrios pela casa inteira. Você nem queira saber como é isso, apenas pense em um doido sambando na sua cabeça... nada simpático.
Entretanto, tudo foi diferente.
Jack entra pela porta, gritando bem alto.
- Vamos Margareth, coloque agora o casaco, vamos sair. Ande depressa!

Margareth se assusta e observa-o inquieto mexendo nas gavetas em busca de dinheiro.
- O que é isso agora? Matou alguém? Ta sendo procurado?

Jack consegue um punhado de dinheiro que havia guardado para a cachaça dentro de uma gaveta perto do quadro da sala.
- Ora, voce acha que se eu matasse alguem eu estaria correndo assim? Meu crime seria perfeito. Não é nada disso, já se arrumou?

Margareth veste o casaco e se levanta calmamente.
- Iremos onde então?

Jack confere o isqueiro no bolso e conta as notas de dinheiro, tudo bem rápido.
- Você tem algum lugar melhor para ir?

É engraçado o fato de Jack sempre mudar tudo, toda a linha de um dia. Se você morasse com ele, teria que estar pronto para surpresas... nunca se sabe do que ele é capaz. Seria bom tambem não sofrer de algum problema cardíaco. 
- Olha, ate tenho sim. Voce realmente nao é  confiavel... prefiro ate lavar a louça do que sair assim.

Jack, a ignora, como sempre.
- Otimo, nao tem. Entao vamos sair nessa aventura comigo, vou te levar em um lugar que voce nunca viu.

Margareth e' entao puxada por Jack pelo braco.
- Acho que voce quis dizer desventura.

Os dois entao saem de casa. Margareth confere se a porta esta trancada tres vezes. Iria ser quatro mas Jack interrompeu-a com um puxao que a jogou bem longe da porta. Os dois seguem em passos rapidos para o lugar misterioso.

- Olha Jack, eu sempre caio nessas suas historias. Estamos indo onde? Fale logo. Acho bom voce nao estar me enganando e nao ser um puteiro.

Jack acende um cigarro e sorri.
- Sou um homem de classe, puteiro ja e' demais querida.

Margareth, ainda nao acredita.
- Mas nem cassino, ja cansei de ir pagar suas dividas que nao acabam nesses jogos de azar que voce ainda insite em apostar.

Jack para subitamente e joga a bituca fora.
- Chegamos!

O lugar era uma pequena lojinha, bem escondida. Estava iluminada com umas luzes vermelhas. Margareth nunca havia notado. Sinceramente, acredito que sao poucas as pessoas que iriam notar por ser bem pequeno e discreto. Ate porque tambem, e' uma porta no meio de uma bagunca, a janela ao lado e' pequena e esta coberta com papel pardo.

Margareth observa tudo em volta, a entrada esta mal cuidada, ha lixo no chao.
- Que ninho de rato voce me levou dessa vez?

Jack nao responde nada e entra, alguns segundos depois Margareth toma coragem e se infiltra no lugar. Por dentro ha varias luzes vermelhas no teto que dao um clima misterioso para a sala. Ao contrario de la fora, esta tudo bem limpo, impecavel, branco. Entretanto, o que mais chama a atencao sao as paredes, cobertas por quadros e telas das mais diferentes formas. Ha alguns vasos de plantas no chao mas provavelmente voce nem notaria.

Margareth senta-se em um banco para observar tudo, ela necessitou sentar. Jack estava no outro comodo conversando com um homem barbudo que usava um oculos engracado, alguem que voce trombaria dentro de um ambiente como esse, certamente.

Jack troca algumas palavras com o homem e entrega o dinheiro que antes era para a cachaca e apresenta o sujeito para Margareth.
- Esse aqui e' o Osires, dono do lugar.

Osires aperta a mao de Margareth, que estava bem fria e da um sorriso simpatico.
- Prazer, esse e' o meu covil, desculpe pela bagunca.

Margareth nota que seus olhos sao mais calmos do que os de Jack, mas mesmo assim fica desconfiada.
- Ola... nunca ouvi sobre voce... prazer.

Osires e' um homem um pouco mais alto que Jack, e suas roupas nao sao tao acabadas. Tem uma barda com alguns fios brancos mas nao e' muito mais velho do que os dois. Como eu disse antes, na certa voce pensaria em um homem como ele em um lugar desses coberto de quadros loucos, modernos que nem parecem fazer sentido. Mas antes, a historia nao era bem assim.

Margareth anda pela sala e ve varios quadros com respingos de tinta por todo lado, algumas telas com colagens malucas de animais de fazenda andando pela cidade e outros com frutas. Ela so' queria entender alguma coisa e entao pergunta como eles se conheceram e quem e' Osires.
Jack entao comeca a falar.

- Esse e' Osires, ja falei dele outras vezes mas voce nao me levou a serio, acho que nem me ouviu. Agora voce tem a oportunidade de conhece-lo! Lembra que um dia disse de um homem engracado que conheci na quadra debaixo?

Margareth sem graca responde.
- Creio que sim... mas nao era um advogado, algo assim?

Osires entao responde, bem pensativo, longe.
- Ora, ora, esse Jack. Contei minhas historias de moleque para ele, do tempo que eu passava na frente do forum e via aqueles engravatados com sapato de couro... so' pensava no quanto queria isso pra vida. Aqueles sonhos de garoto, acreditava que era so' fazer direito e se fosse ja estava garantido. E' isso, e' isso.

Margareth ouve um tanto confusa.
- Entao e' voce o advogado que Jack falou-me?

Osires entao sacode a cabeca e volta do seu transe.
- Advogado? Quem me dera, acabei por ser vendedor de arte nessa quadra, aqui mesmo.

Na hora Margareth exclui suas conclusoes antigas e pensa ``pronto, outro louco``. Jack entao abraca o amigo.
- O conheci no bar, Margareth! Depois ele me trouxe aqui e me apaixonei na hora pelos seus trabalhos, agora ate somos belos negociantes e acima de tudo, amigos de pinga!

Margareth da um sorriso amarelo, so' consegue pensar em Jack gastando dinheiro nao so com mais bebidas mas com quadros totalmente esquisitos que nao faziam sentido nenhum. Como pode alguem combinar vacas verdes com pastos rosa em uma pintura? Agora ela estava certa que os dois serviam um para o outro. Osires vai buscar o casaco no quartinho ao lado e entao ela aproveita para sussurrar com Jack.

- Por favor, nao me diga que voce comprou um desses quadros.

- Nao seja grosseira, comprei sim. Aquele ali com um abacaxi no meio, esta vendo?

- Eu nem sei porque estou surpresa, voce vai colocar isso embaixo da escada, escondido.

Osires sai do comodo e entao Jack entrega um bilhete para ela e pisca, como se ja soubesse que ela nao aprovaria.
- Estou indo pro bar, como sei que nao ira querer vir, espero que saiba como voltar para casa.

Os dois saem do comodo direto pra rua, a noite apenas comecou para os dois. Margareth continua no local, bem confusa com tudo aquilo. Ainda nao entendia como o homem ainda tinha um lugar daqueles, como conseguiria vender aquelas baboseiras todas e conseguir dinheiro.
- Nao e' possivel que exista tantos Jacks assim para sustentar um doido desses.

Margareth sempre gostou de arte, mas vamos dizer que, apenas de uma arte bem classica. Ela suspirava com as criacoes de Da Vinci e a perfeicao das figuras humanas de Michelangelo. Aquilo era um pontada para ela. E' claro que Jack sabia e a levou la. Voce nao acredita que os dois se completam?

Margareth entao respira fundo e se aproxima do quadro mais simples que tem la. Na tela havia um abacaxi na frente de um fundo azul com umas cores vermelhas. Observa um pouco e entao abre o bilhete que Jack a deu e leu em voz baixa.
- Solte-se um pouco. Afinal, o que importa e' reconhecer o belo e ousar expressa-lo.

Sempre as palavras de Jack reescrevendo todos os pensamentos de Margareth. Depois de alguns minutos ela respira bem forte de novo mas dessa vez estende a mao e tira o quadro da parede. Sem pensar duas vezes, vira-se para porta e sai. Encosta a porta e segue pela rua, banhada pelas luzes dos postes com o quadro embaixo do braco, de volta pra casa.


- Afinal, o que e' arte, ne' Jack? - Margareth sussurra baixo com seus passos curtos na calcada.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Jack e Margareth - Conto 6

•Margareth (entra em casa correndo e bem feliz, são 20:00 da noite e Jack está sentado na cozinha, olhando para o nada. Ela coloca uma caixa preta na mesa)
- Pronto, é isso!

•Jack (dando um gole em uma bebida forte)
- Você demorou hoje pra chegar do trabalho, foi sair com alguém é? Geralmente você costuma ser tão pontual.

•Margareth (ignorando)
- Comprei uma câmera! Estou com um novo projeto em mente, para nós dois, inclusive!

•Jack 
-Da onde surgiu essa ideia? Quer virar fotógrafa?

•Margareth 
- Estou querendo trabalhar menos na consultoria, acho que aqueles números todos e aquelas pessoas realmente não estão me fazendo muito bem.

•Jack
- Corta essa, acha que me engana? Tem algo aí, não é possível. Além disso, você foi feita para os números, não consigo nem pensar em outra profissão que você se encaixaria.

•Margareth
- Bom, eu até tentei Biologia. E, olha aqui, eu nem faço tanta questão assim desses números, voc~e exagera demais.

•Jack (ri sarcasticamente)
-Sim, claro, é verdade, sua obsessão é outra ilusão minha. 
Agora me diz, ainda lembra algo de Biologia? Chegou mesmo a fazer curso?

•Margareth
- Sim, claro que cheguei a fazer, inclusive, tinha as melhores notas da sala.

•Jack
- Isso era de se esperar, as melhores notas. Conte-me um novidade.

•Margareth
- Eu ainda lembro bem de algumas coisas... você sabe sobre a taxa metabólica de um pinguim de 65kg?

•Jack
-Por que diabos eu saberia disso?

•Margareth (falando rápido e animada)
- Em valores médios, quando o pinguim está dormindo a taxa é 60kcal/h, porém quando a atividade dele deixa de ser tão leve, como a ação de andar, a taxa passa para 400kcal/h. Entretanto, quando a atividade passa a ser um pouco mais pesada, como corrida, a taxa chega a 800kcal/h! Agora, sobre cachorros, 3 cães de 25 quilos tem necessidades superiores à de um cão de 75kg, isso se dá pois, com a razão entre a área de superfície e o volume corporal diminui com o tamanho do animal, nos cães menores a soma de energia consumida pelos 3 vai ser sempre superior à do cão de maior porte. Bem, agora sobre as vacas...

•Jack (interrompe Margareth)
- Estupendo mesmo, me perdi quando você misturou pinguins com cachorros. Qual o motivo de ter largado o curso?

•Margareth 
- Naquela época eu ainda era vegana. Quando a matéria chegou em botânica, comecei a saber exatamente tudo sobre as plantas, tudo. E bem, a ideia de que elas também sentissem dor, como os animais, começou a me dominar de vez... e o problema é que quanto mais eu estudava sobre elas, menor ficava meu cardápio... então já viu, precisei largar aquilo, não me fazia bem...

•Jack
-Margareth, você é uma pirada. O que é que não acaba por te fazer mal?

•Margareth (abre a caixa e tira uma câmera da caixa)
- Enfim, foco! Olhe só esta câmera!

•Jack 
- Legal... e o que pensa em fazer com ela?

•Margareth
- Estou com um projeto novo para o meu site... nosso site. Quero abrir uma página basicamente para fotos documentais, estive lendo sobre essa tipologia e fiquei encantada! Preciso disso! Talvez com esse projeto eu consiga também me afastar tanto de números e mais números.

•Jack
- Te conheço bem, Margareth, não escolheu esse gênero fotográfico aleatoriamente. Acredito que essa é a que mais envolve delicadamente o controle... e, bem, você sabe que não são só números que te afligem mas o domínio também...  novamente o controle.

•Margareth
- Jack, eu me informei bastante sobre esse assunto. Já até sei que devo utilizar o modo de prioridade de abertura, assim não precisarei ter que configurar sempre a câmera e...

•Jack ( sem deixar que ela termine)
- Parabéns, você sabe a parte técnica inteira, mas pense em uma cena de conflito, você pode até saber sobre a configuração mais perfeita, porém, surtaria com a falta de controle e caos do momento. Fotografia vai muito além de uma iluminação e posição perfeitos.

•Margareth (pensativa e um tanto quanto triste)
- Talvez você esteja certo mesmo.

•Jack (levanta da cadeira e ajuda a guardar a câmera de volta na caixa e a tampa)
- É uma pena ver o quanto sua personalidade anancástica acaba contigo, Margareth, estou falando sério contigo. Sua compulsão te devora cada vez mais e eu não posso fazer nada para parar isso, apenas você.

•Jack (enche seu copo de whisky até a boca e dá um gole que acaba com a bebida do copo)
- O seu projeto pode até ser interessante, mas convenhamos, eu te conheço, você não conseguiria nem por um dia aguentá-lo. Margareth, entenda, até que você não ache a porte de saída do seu labirinto numérico, não conseguirá suportar quase nada. 

•Jack ( deixa o copo na mesa e vai em direção a Margareth e sussurra em seu ouvido antes de virar as costas e subir para o seu quarto)
- A ficha precisa cair. O tempo não para. Quanto mais você se perde nesse labirinto, mais seu suicídio é prolongado.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Jack e Margareth - Conto 5

•Jack
Me ajude aqui, por favor. É algo sério.

•Margareth
Hm, quero fazer o café, espero que seja rápido

•Jack
Qual a maneira mais fácil de vomitar?

•Margareth (se assusta e fala de forma rápida)
Está louco? Passando mal?
E de onde você tirou que sei sobre isso? Creio que é só tomar aqueles remédios pra quem bebeu algum veneno... acho que vende em qualquer farmácia

•Jack (anda em direção ao banheiro, perto da escada)
Esperava que soubesse, afinal, esse seu doutorado em autodestruição serve pra que?

•Margareth (ignorando o que Jack diz)
Anda, me conta o que aconteceu dessa vez. São nem 6 horas da manhã e você já vem com essa conversa. Não me diga que foi veneno mesmo... quando o assunto é você, só espero o pior.

•Jack
Sim, envenenamento. É sério.

•Margareth (preocupada)
O que você bebeu??

•Jack
As notícias, Margareth! Ontem saí para pegar o metrô, como o de costume, e fui encurralado por milhares de péssimas notícias amargas em todas as paredes, lugares.
Eram mortes, sangue, assassinatos...
Por acaso já citei mortes??

•Margareth (um pouco aliviada)
Entendi... e eu achando que você tivesse realmente bebido umas pílulas pra não acordar mais. Não me mate de susto! Além disso, você sabe que a mídia é assim, você sabe bem que...

•Jack (agora vasculhando remédios pelo banheiro todo)
Sim, claro, ok. Mas a questão é que estou envenenado sim! Dos olhos passou para o meu corpo inteiro e agora está na minha mente! E faz tempo! Não consigo parar de pensar em tanta notícia ruim. Eu preciso vomitar de vez!

•Margareth
Bom, entendi que você está sensível sobre esses assuntos todos e...

•Jack (interrompe)
Me diz agora, como você não está? Como muitos conseguem digerir tão facilmente esse veneno todo? Ontem, vomitei no metrô inteiro, devem ter me chamado de louco bêbado sem rumo. Dessa vez, eu nem estava bêbado! Juro!

•Margareth
Sobre o que você disse agora, talvez não seja vomitando que vai resolver sua situação. Realmente, foram poucos os que comentaram comigo sobre todas essas catástrofes recentes...

•Jack
Eu devo então usar óculos escuros? Acho que assim acabo não reparando tanto nas notícias... não devoraria tanto mal

•Margareth (indo em direção à Jack com um café)
Acho que não, Jack. Talvez precisemos de mais pessoas como você...

•Jack (sarcasticamente)
Ok, os rios em vez de água teriam vomito verde... boa ideia mesmo.

•Margareth
Não, idiota. Vomite então, porém, transforme essa massa verde em palavras, barulho, discussões. As pessoas andam a usar muitos óculos escuros por aí, aqueles de cego, sabe? É isso que piora ainda mais a selvageria de todos.

•Margareth (da um beijo na bochecha de Jack, entrega o café e sai pela porta da frente)

•Jack (sussurrando para si mesmo)
Talvez ela esteja certa. É melhor estar envenenado do que forçar um problema de visão qualquer. O pior cego e' o que nao quer ver.

domingo, 10 de setembro de 2017

Jack e Margareth - Conto 4

Jack estava sentado na cadeira perto da cozinha, se é que aquilo poderia ser chamado de cozinha... a geladeira, que já nem funciona mais, estava cheia de livros velhos de Margareth. As prateleiras, por outro lado, cheias dos mais diversos utensílios, novíssimos e caros. Aposto que nenhum deles foi usado naquela casa e muito menos seriam utilizados. Mas graças a eles a cozinha ainda poderia ser chamada de cozinha.
Mas não pense que a casa toda é assim, Margareth tenta deixar o resto dos cômodos impecáveis, os quadros foram todos bem selecionados pelos seus olhos críticos, os papéis de parede também, nenhuma parede branca foi a única exigência de Jack. A casa tem dois andares, em cima temos o quarto de Jack, que esse sim é uma bagunça ordinária, e um outro quarto de visitas. Embaixo, uma sala pequena, uma cozinha e o misterioso quarto de Margareth. Esse mistério já rendeu uns bons poemas, Jack nunca entrou lá, ainda...
Bem, fiquem a vontade, li em algum lugar que ''o que faz o lugar ser bom são as pessoas'', acho que foi em um biscoito da sorte Chinês ou algo assim.
São exatamente 6 horas da manhã e Jack tenta terminar o seu texto. Margareth acabara de se arrumar, sua rotina na semana é sempre a mesma: acorda 5:00 da manhã, levanta-se e toma uma ducha, abre as cortinas, escolhe sua roupa e em seguida prepara um café bem forte. Algo que nunca falta naquela casa são os cigarros e whisky de Jack e o pó de café.
Margareth passa pela sala, nota que seu quadro preferido está um pouco torto, uma pintura formidável inspirada nas bailarinas azuis de Edgar Degas. Após arruma-lo vai para a cozinha e começa a fazer seu café.
Antes mesmo de Margareth dar bom-dia ela é cortada por Jack:
J: Ouça isso aqui, por favor. Senta aí.
M: Quem diria você precisando da minha ajuda.
J: Começa mais o menos assim: A língua passa pelo licor, entre as cerejas e o vinho...'', preciso de mais sabor... mais uma pitada de sabor?
M: Tente um pouco de vermelho agora, isso sim tem sabor.
J: Ok, ''E entre seus lábios a minha própria sina, em vermelho sangue''. O que acha?
M: Ao fim coloque algo fora de si...
J: Que tal ''Um êxtase sublime pelo corpo inteiro''
M: Está indo bem com esse poema, conseguiu dormir essa noite?
J: Espere, espere. Agora sim estou quase acabando.
M: Com esse cheiro de whisky que senti já pude me responder...
Margareth coloca uma xícara ao lado de Jack e enche de café. São agora 6:30 e ela não pode se atrasar para o trabalho. Todas as manhãs, das 7 horas até às 15:30 da tarde, Margareth se prende aos números, trabalha na consultoria de estatística mais importante da cidade. Ela bebe seu café e vai em direção a porta:
- Até mais tarde, Jack. Quando acabar o poema não esqueça de me mostrar.
- Espere!
Na hora que ela coloca o pé para fora de casa, Jack pucha seu braço e entrega o texto, pronto. Margareth traga cada palavra e da um sorriso. Isso é música para seus ouvidos. Quando ela olha de volta para dentro de casa, Jack já havia sumido, provavelmente para seu quarto no andar de cima. Se tem algo que realmente pode salvar alguém em uma manhã cinzenta são a palavras de Jack, escolhidas a dedo em busca de efervescência. Dessa vez seu poema estava embrulhado em um papel de carta, ''para Margareth'' escrito bem em cima.
 - ''Eu olharia nos seus olhos até que a eternidade nos devorasse''.
Ela lê em voz alta a última frase, olhando suavemente para a rua. Tranca a porta e sai em direção ao metrô com a carta em suas mãos.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Margareth e Jack - Conto 3

São 8:00 da noite e lá estão Jack e Margareth no sofá da sala.
- Como pode, Margareth, como pode?
- O que foi dessa vez, Jack?
- Essa merda desse cara na televisão fazendo mágica com compostos químicos ou sei lá o que isso é.
- E o que tem? Achei muito legal, você viu um episódio em que ele joga uns líquidos em um balde e do nada explode uma névoa de gelo? Achei fantástico...
- Ah, claro! Um gênio mesmo, daqui a pouco joga tinta em um copo com água e diz que ela magicamente mudou de cor.
- Ora, Jack, larga de bancar um velho idiota. Pelo menos reconheça que o cara é incrível, eu nunca conseguiria fazer o que ele faz.
- Claro que não faria, você nem deve saber o básico de química, muito menos sobre o que é uma molécula de serotonina ou dopamina.
- Olha, serotonina regula o apetite e dopami...
- FODA-SE. A questão é que um cara desse é um Químico e só, é claro que ele sabe fazer essas misturas de bosta, isso não é mágica.
- Okok, Jack, então você tem preferencias por coelhos saindo da cartola... Corta essa, o cara é super famoso, enquanto você resmunga no sofá de uma casa caindo aos pedaços, ele está lá, faturando milhões de reais com a famosa ''química de bosta'' dele. Se você se acha tão bom, então porque não está lá no lugar dele?
Jack levanta-se do sofá, acende um cigarro e prepara seu olhar zombador.
- Me poupe, querida. Eu sou um artista de altíssima qualidade, nunca me submeteria a isso. Estar em um palco de um programa com um bando de olhares fúteis de alienados febris... A fama não é tudo isso, e é claro, só não estou lá porque não quero!
- Ah mas claro! Um baita de um mágico artista mesmo, espero que seu próximo truque consiga magicamente pagar o aluguel.
E assim, Margareth levanta-se em direção ao seu quarto, bate a porta e coloca seu ponto final. Logo em seguida Jack enche seu copo de whisky e então resmunga para a Lua fora da janela:
- Amadora...



sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Margareth e Jack - Conto 2

As 24 horas do dia. A porta que você esqueceu de trancar. O cachorro na rua, latindo, pingando baba. Uma família inteira que morre agora na Síria. O som de uma raposa. A bomba que cai agora e mata 250 pessoas. 251 pessoas. 252 pessoas. Os postos de saúde que de saúde não tem nada. Os médicos corruptos. Os vendedores de drogas. A carniça de deputados, senadores. O presidente morto por pássaros azuis. A pausa em uma música do Beethoven. Os números de Margareth. Os corredores brancos que te engolem com os olhos. A dor e a delícia. O fim. O fim. O fim. O fim do labirinto e...

- ACORDA, JACK. CACETE!
Essa não é a primeira nem segunda vez que Jack está caído no chão do seu quarto, coberto de whisk e algum outro alucinógeno qualquer. São exatamente 3 horas da tarde e existem milhares de folhas no chão, junto com o resto da lambança de Jack.
No momento em que ele abre os olhos e se depara com a cara de desgosto de Margareth é que ele realmente sai do transe daquela droga. Rapidamente se levanta, fica de frente para ela e pergunta as horas.
- São 3 horas e 20 minutos. Espero que você invente alguma desculpa pra estar assim e a falta de inspiração não é uma resposta PLAUSÍVEL. Espero que você arrume toda essa merda, e que fique IMPECÁVEL e também...
Antes mesmo dela terminar, Jack puxa sua P-38 do bolso, aponta para a parede e atira.
Pow.
A bala não chega a atravessar, mas vira só mais um buraco de muitos naquela parede. Queria que você conseguisse ver os olhos de Margareth ardendo em chamas.
- Dessa vez acertei, Margareth, Dessa vez estou livre.
Jack agora parece delirar, já faz uma semana que ele não tira da cabeça que tem um fantasma no quarto e que só irá desaparecer se acertar um tiro certeiro nos olhos desse tal espírito, e ainda tinha que ser passando pelos óculos. Agora me diz o que é mais estranho, um suposto fantasma no quarto ou o fato de ser um fantasma que precisa de óculos?
Para Margareth o que realmente importa são outras coisas, os números. Foram exatamente 5 balas, 5 buracos na parede e 5 poemas novos. Perfeito, fim.
- Quando que você vai aprender que os únicos fantasmas existentes são os que estão na sua cabeça? Agradeça a eles por ainda te fazerem escrever.
Margareth termina sua frase e então sai do quarto.
São exatamente 3 horas e 30 minutos.

sábado, 29 de julho de 2017

Margareth e Jack - Conto 1

As buzinas da cidade irritada. Não mais irritada que a cabeça de Margareth que está sempre muito ocupada com os números de qualquer coisa. O pão francês de 290cals, a xícara de café com açúcar de 33cals e sem falar nas pessoas indigestas da manhã de 2500cals cada. 
Ja Jack só se desespera com os números de balas da sua P-38 antiga. Faz uma semana que acredita que as balas estão sumindo e não foi culpa da Margareth - a única bala que ela conhece é a de hortelã com 20cals. Mistério encerrado, sem dúvida a culpa é do whisk.  
Faz dois dias que Jack escreve a noite inteira sem parar e que Margareth sumiu com o carro. 
São 00:00, Jack levanta da cadeira e veste seu casaco preto, o único que ainda não está rasgado. Cambaleia até a janela iluminada pela Lua, deixa seu caderno e caneta cair no chão e desmaia. 
Quando acorda já são 10:00, o piso está frio e Margareth acabou de abrir a porta do quarto:
- Santa merda, Jack. Pelo menos essas balas de merda te renderam uns poemas. Imagine se eu tivesse demorado mais um pouco...
E então ela joga um saco cheio de balas na mesa. Não são as de hortelã com 20cals nem as de caramelo com 40cals, são exatamente 3 balas para a P-38 que ela roubara na noite anterior de uma loja de antiguidades. Jack entrega seus poemas para ela e esconde o saco de balas no armário. Se tinha algo que Margareth não se cansava era de engolir seus poemas. Isso é uma das coisas que os mantém ligados, Margareth precisa dos poemas para o seu site que só cresce por culpa deles e Jack precisa de grana. Como parece que os únicos que gostam dos poemas são os seguidores do site, Margareth fecha o contrato e dá 100 pila pra cada poema que chegue a pelo menos 500 vizualizações. Trato feito. 
Jack sabe que a única coisa que pode salvá-la de se afogar em números doentios são esses poemas e, alem de tudo, isso também o salva com o aluguel do quarto. 
Com ar de madame vermelha, Margareth sorri ao ler todos os poemas. Depois que ela descobriu que é fácil lucrar com o público online, seus textos no site viraram sua segunda obsessão. Os poemas de Jack só a ajudam ainda mais com as visualizações. 
Margareth entrega um maço, um copo de água e um dorflex para Jack e em seguida fecha a porta com delicadeza. Seu salto barulhento pode ser ouvido na casa inteira, até que ela entra em seu quarto e desaparece. Silêncio. 
Jack bebe toda a água e engole uma pílula:
- Essa mulher ainda me mata um dia desses. 
Puxa um cigarro do maço, acende-o e em seguida olha para fora da janela. Seu olhar de tigre, amarelo, focado nas pessoas desesperadas que andam na rua, como se estivesse preparado para o bote. 
É assim que ele te devora.