domingo, 10 de agosto de 2025

Cartas achadas 2 (13/5/2024)

 

Jardin de Luxembourg, Paris, 1994 - Luiza Venturelli

Estava mexendo nas gavetas de casa, aquelas com cheiro de infância com madeira. Encontrei esse cartão e fiquei com vontade de te escrever. Paisagens urbanas em preto e branco, imagens líricas - nem análise do comportamente e nem ensaio antropológico. Rua e movimento, quem sabe, traçados que um dia poderemos fazer. Típica França com bancos e praças - cidade cinza? Viver esse momento e mais, num mundo da fotografia urbana, em outras cidades e viagens. Essa é só uma pequena lembrança para minha urbanista preferida! Um enquadramento do urbano francês numa bandeja! Ou melhor dizendo, em um cartão!

Com carinho, 

rai

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Cartas achadas 1 (sem data)

 Gregório,


Se você fosse um lobo seria um de cor marrom claro. Um que correria bosques e desertos para depois se deitar em sombras confortáveis de grandes carvalhos. Seria um dos lobos mais belos, de olhar calmo e tranquilo. Mas, acima de tudo, levaria o meu coração em seu peito. Eu te amo com tudo de mim. Obrigada por ser tanto para mim. Contigo, sinto que já cheguei ao paraíso dos lobos. 

Com carinho e beijos de inuit,

lua

terça-feira, 22 de julho de 2025

Trecho retirado de uma nota - 22 de dezembro de 2024 às 2h48 da madrugada.

 [...]

Não há nada mais lindo do que ser escolhida por alguém que te diga que almeja e sonha ser conhecida inteiramente por. Ø desejo de querer poder falar tudo, ser lida entrelinhas, facetas, memórias, entre dor e amor, tudo. A confiança de se estar ali, sem ter onde se esconder e sem querer que haja qualquer cortina ou amordaça. Ser escutada inteiramente e simplesmente ser - e tudo que isso acarreta. Ø desejo mas também a coragem. Isso sim é lindo, assim como poder fazer parte disso como alguém que deseja conhecer tudo ø que pode e até onde é permitido do outro. Sinto falta de escutar mais, apesar de ter tido toda a oportunidade de escutar tanto. Infelizmente não há como escutar fantasmas - espero não ser delirante. Encerro assim, já que necessito dormir. 

22 de dezembro de 2024

quinta-feira, 17 de julho de 2025

20 de dezembro de 2019

Um dia, papeando com meu amor e contando piadas, conversávamos sobre mentiras e comidas preferidas. Não lembro totalmente agora, mas ríamos sobre o fato de que ela havia dito a comida preferida e eu insistia que a minha era tomate e pêssego, algo assim! Dependendo do dia, eu falava uma diferente. Sei que naquele momento específico, nos olhamos e propuz um desafio. Em poucos minutos eu e ela tínhamos que escrever um poema-desafio sobre esse assunto e eu tinha que responder o dela. Esse foi o resultado:

Ela escreveu assim:

mentira? 

diz um diz dois 

tomate ou pessego?

Dúvida eterna 

Confusão completa 

sempre a buscar 

nunca a alcançar 

como aquela que corre

corre  corre corre 

e foge?

fuga.

foge de si apenas 

da verdade 

Pessego? 

Tomate?

ambos



ou de fato,

nenhum,

n a d a.

-----------------------------------------

A minha resposta foi:


A Resposta a altura


digo-te um dia pessego 

noutro tomate

e o que me dizes 

uma única palavra 

mentira!


mas como pode ser uma calunia? 

há tanta certeza em cada resposta

uma hora sim, pêssego, se adequa bem

outra hora sim, tomate, qual o problema?


não corro de mim, eu caminho por tudo o que sou 

e em minhas elaborações diversas

solto a resposta que mais convém

seja tomate seja pêssego

todas as respostas reais

cru

as respostas sempre como um retrato verdadeiro de quem sou


pêssego sim. tomate sim. 

e agora eu diria 

mais uma certeza. 

odeio pera.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Palm Beach 26/01/2020

ao contrário de muitas que sou, quase sempre do contrário. prefiro as luzes amarelas e desgastadas às luzes embriagadas/vermelhas de uma festa e qualquer burburinho que seja. admiro a lua bem do solo, enquanto sonho com chácaras, paredes de tijolinhos e amoreiras e jabuticabeiras. dálmatas correm soltos pelo gramado, os pássaros roubam frutinhas das árvores e eu me encontro ao lado da rede, sozinha. não escreverei sobre ruas largas de Palm Beach, Delray, Downtown Beach - nunca que me veria aqui de verdade. porém, cá estou eu! bem. de forma geral, bem. o conforto dos que vivem aqui é o luxo, já o meu: é estar em um gramado passeando com dálmatas. (depois eu termino) (sozinha)

(maia)

2020

 Texto que achei no meu caderno de gatinhos do pintor Carlos Páez Vilaró, comprado no Uruguai. Cartinha escrita em 2020.


Espero que, algum dia, alguém te entregue isso. Acho justo você me conhecer mais também. Às vezes, acabo ficando mais calado; às vezes, as palavras me travam, e eu continuo a me estressar com elas saindo erradas da minha boca. Como você, em algum momento, me escreveu: é dicotômico, sim, mas não quero fazer nenhum estudo sobre isso — aposto que alguém em mim fará. Eu estou aqui. Adoro laranja, correr na areia da praia, regatas, bandanas, e odeio camarão. Não sei o que sentir sobre isso não ser constante. Não sou um mentiroso — mas aposto que, amanhã, eu comeria um prato de camarão contigo e diria que está ótimo! Tudo bem. Ao contrário de muitas que sou, não me agonia estar aqui. Sei que sou útil para muitas coisas. Gosto de escrever e sair de casa — quem sabe até fugir! Mas me agonia, até certo ponto, meu nome escondido atrás de uma cortina vermelha. Mas tudo bem. Digo de novo, e pra mim mesmo/mesma: não estou por aqui sempre, mas, quando estou, aproveito imensamente o que posso. É o que sempre fiz. Quem sabe, algum dia, eu aprenda a tocar violão e te escreva uma música! Na minha cabeça, eu já teria feito isso há muito tempo. Coloquei "Frevo por Acaso" na sua playlist para que se lembre bem de mim e do meu nome. Como outra música dele diz: tô por aí! Ao contrário de "De Passagem", não estou — mas todo o restante da letra eu dedico a você! Sinto que já já me vou, e há tanto a ser feito! 

Com carinho, 

Cícero

27/05/18

 Texto que achei no meu caderno de gatinhos do pintor Carlos Páez Vilaró, comprado no Uruguai. Nota escrita em 2018.


Quando tudo está virando líquido e escorrendo para todos os lados, sento em minha cadeira preferida e vou beber café - me agarrando, assim, em algo. Qualquer coisa.

Tudo não pode ser só isso, Diário. Não pode. E como fica tudo o que eu nunca irei saber?

18/03/18

 Texto que achei no meu caderno de gatinhos do pintor Carlos Páez Vilaró, comprado no Uruguai. Textinho escrito em 2018, bem divagando poraí numa viagem. 


Ontem, de madrugada, sonhei que não haviam casas, só o preto e o vermelho. Eu vi! Vi sim. Por entre todos os sonhos, de todos. A floresta obscura, várias árvores, curvaturas e os cervos confundidos com galhos. A metáfora do acordar, uma bala bem ao centro da cara, isso tudo enquanto o coelho do relógio corre como um doido! Uma cadeira no centro da sala branca, sem portas, sem janelas - a luz pisca. Sem saída? Sim.

Agora, acorde no centro da rua - céu roxo das 3h da manhã. A coruja espia-te e você inventa de acreditar no gato do fim da rua, sentado na grade de uma casa amarela. Nunca fui de gostar muito de amarelo. 

Se transporte então para dentro da sua geladeira! Onde o resto dos seus sonhos estão, agora todos cobertos de poeira! Sufocante e congelante - ali está você. Saia.

sábado, 3 de maio de 2025

7/7/18

Texto que achei no meu caderno de gatinhos do pintor Carlos Páez Vilaró, comprado no Uruguai. Textinho escrito em 2018.


Estava em casa, não aguentei. Precisava sair daquele lugar. Já estava quase pra vomitar de agonia. Subi na bicicleta e cheguei aqui. Engraçado, durante o trajeto todo, só pensei na cena de estar aqui, sentada - exatamente aqui. Preparei o roteiro inteiro enquanto pedalava e o vento batia em meu rosto. Onde moro é seguro e existem vários caminhos e becos para se enfiar. É divertido. 

A verdade é que sempre quis sentar aqui e escrever algo, qualquer coisa que fosse. De certa forma, estou feliz por essa conquista! Durante o percurso inteiro, pensei no agora, estar sentada segurando exatemente esse lápis e esse específico caderno. Porém, não consegui pensar em nenhuma linha escrita. Bom, o que é escrito agora então é fresco. Melhor que um diário! Concorda?

Precido dizer para você algumas coisas: o último filme que assisti foi ótimo, mas fez com que eu me sentisse sozinha. Durante a pedalada até esse banco que sento agora, relembrei o medo que tenho de homens desconhecidos. Também pude me divertir com o som que as folhas fizeram quando estava chegando perto de onde me encontro agora. Breve trajeto, divertido. Outra coisa, mas essa vai mais longe no que estava pensando: é que tento ao máximo não repetir palavras ou frases de poemas que escrevi em outros textos. Sim, estou tentando ao máximo não repetir e escrever "fluxo de consciência". Bom... agora, foi-se! A penúltima coisa que vos digo é que senti uma mão nas minhas costas, agorinha, mesmo estando sozinha. Isso foi agora a pouco! Nesse banco embaixo de um caramanchão feito pela administração do Lago Norte. A última é que estou indo me levantar, rumo minha casa e usar, pela primeira vez, as luzinhas traseiras da minha bicicleta.  

Ah! Antes que me esqueça, já que você chegou até aqui, seja quem for, contei-te uma mentira nesse texto. Ache. Ache-me.


Raíssa?

sexta-feira, 21 de março de 2025

21 de março de 2025, 3h26 da madrugada (tirado das notas)

Enquanto antropóloga, sei: isso não é uma etnografia! Mas sinto a urgência de anotar, escrever, desembaraçar as mãos — ter um pouco do vivido e compartilhado em pauta, mesmo que seja análise ou conversa de saída na rua; conversa com alguém que está esperando, com você, o sinal ficar vermelho para atravessar a rua.


Dou uma pausa e escovo os dentes. Quem sou eu? Lua. Digo em alto tom, dentro da minha cabeça, tentando cortar os diálogos de Camila — ela, que não consegue ouvir ou ver um fato sem querer logo transformar em ideia para um novo conto. Como posso te explicar isso?

É como se eu estivesse tranquila, lavando as mãos na pia do banheiro, e, de repente, surgisse esse diálogo, puxando com força, querendo arrebentar a porta. Uma urgência desesperada de transformar e criar um pensamento, que vai acabar virando um grande texto. Um texto onde Mário e Margarete — meus personagens dos meus contos de sempre — estarão no fronte.

É tipo quando leio uma história de um livro e devaneio; começo a criar outra história dentro do livro.

Sinto que Camila tem essa urgência de querer escrever o tempo inteiro. Ou melhor, de tentar transformar TUDO o que pode em um conto com personagens, transformando fatos diversos em diálogos e especificidades de cenários para contos.

Eu me seguro! Para quem me escuta, pode ser algo como: “eu tento me conter para que esses pensamentos não me tomem por inteira e eu passe a começar a rascunhar um texto legalzinho, um conto”.

Eu entendo isso. Mas eu, que estou aqui, QUERO ESTAR AQUI, PRESENTE. Não quero outra na minha cabeça agora. Quero ter controle dos meus pensamentos.

Que venha, então, Camila em outra hora e faça isso — mas não quando eu estou aqui e me sinto aqui. Eu, hein.

Se compartilho minha cabeça com outras, que essas esperem até eu estar saciada da minha própria realidade. Depois que eu já não estiver aqui, que tomem minhas rédeas — ou melhor, as próprias; seja de quem virá, de quem terá sua vez.

Um corpo é apenas um para tantas lógicas, nomes e cores, infelizmente. Mas é assim que há de ser.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

14 de janeiro de 2025 02h02 da madrugada

sem pontuação

eu sento ao lado da roda do meu carro na garagem ouço as gotas escorrendo pelas folhas das plantas do meu jardim frontal meu cachorro fica ao meu lado olhando a rua e ouvindo os cachorros que as vezes latem para algum som maior escrever sem por pontuação é interessante sabemos que é necessário mas não coloco agora tudo tem que ser dito sem pausa apesar de que na minha cabeça as faço ponderamente enquanto algum vizinho tosse e alguém ri e conversa bem à distância vamos seguindo em diálogo sentada em cima das pedras de Pirenópolis que constituem ø meu chão uma virada várias viradas cheiro do meu cachorro que agora está deitado em minha frente mas de cabeça em pé nunca saberemos ø que eles escutam que nós não escutamos então precisamos aceitar essa realidade para seguirmos né certo? primeira pausa aqui feita a contra gosto meu isqueiro acabou  mas por acaso pensei nisso antes e deixei um escondido numa bolsa no porta malas porém agora devo dormir podia ter sido um final diferente agora escuto uma coruja gritar penso que devo dormir não sei quem sou mas quem você é agora meu cachorro achou algo para morder e cada mordida preenche a noite

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Brasília, 8 de dezembro de 2024 (modificado e retirado de um diário)

Ia dormir, mas fui responder algumas mensagens no celular e acabei retornando para a escrita. Preciso voltar a ser calma. Preciso não estar contaminada.

Vi que escrevi, em outro momento, sobre um poço de fazenda. Lembro-me de mim, criança, correndo sozinha na estrada de terra da fazenda, com minhas botas bem gastas pelas aulas de montaria. Achei um poço no meio do milharal. Achei que tivesse descoberto um mundo de segredos. A água estava gelada. Bichinhos em cima da água se moviam, feito aranhas-d’água — parece que se chamam aquarius esses insetos de pernas finas.

Lembro que bebi; enfiei meu rosto na água gelada, espantando os insetinhos. Não dava para ver o fundo. Tudo era um tom de azul-marinho. Sempre tive medo de abrir os olhos debaixo d’água.

Sei que eu me aventurava sozinha por todo canto da fazenda do meu pai — algumas vezes sozinha, outras vezes com as crianças do caseiro. Brincávamos de dar comida para os porcos, chupar cana, andar a cavalo e perseguir os girinos da nascente do Rio Verde. Em outros momentos, minha brincadeira era com meus amigos imaginários. Seus nomes, guardados no fundo da minha cabeça — eles possuem corpo, voz, sentimentos e partes de mim.

Lembro-me bem deles, em memórias meio opacas, em brincadeiras que aconteciam no meu quintal de casa e também na porta de vidro da sala. Saudades. Vivo no passado, pois moro numa casa de infância ainda. Ou, talvez, procuro ao máximo viver numa casa de infância para fingir que há como segurar o tempo nas mãos.

E o pior: ainda não sou uma pessoa velha.

Casa repleta de coisas; bagunça do que já fui e sou; paredes que me viram crescer. Escrevo aqui, agora, mas sinto que minhas memórias antigas — se posso dizer — são todas tão classificáveis. Parece que posso contá-las. Consigo classificar coisas novas? Posso ver mais do que vivi? Esquecer e relembrar. Nem todo livro me dará respostas.

Gostaria de procurar mais nas florestas do Norte, ao lado de lobos.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Senhorita T.

Inspirada nos contos e outros esboços da poetisa que, infelizmente, reside no lago. 


Encontrei-a no jantar a noite passada. Tem cabelos claros, num tom caramelo, rosto e boca delicados, quase como desenhados à lápis. Ela me lembrou, rapidamente, de uma outra garota, que vi correndo porta à fora de uma loja, numa dessas ruas beges bem lindas de Roma. Essa menina certamente havia roubado algo que parecia uma saboneteira. Só podia ser! Lembrando melhor agora, era, na verdade um kit de duas saboneteiras. Só podia ter sido furto, porque consegui notar um sorriso de canto de boca. Toda ladra costuma reconhecer outra. Senhorita T. possuía as mesmas mãos cetim e o sorriso de lado que essa garota de minha memória. Enquanto ela conversa com as outras pessoas na mesa rústica do jantar, ela finge que não sabe mentir para dar toda a graça. Ela sabe navegar em qualquer assunto, como se fosse timoneira de nascença e sempre tivesse tido como propriedade um veleiro, com seus mastros e velas devidamente calculados para evitar a deriva. Uma curiosidade sobre os veleiros é que, quando bem construidos, conseguem navegar quase contra o vento e não apenas com o vento a favor. Ela, enquanto navega, a fala se delicia em meio ao mar, às gaivotas e às cadeiras de madeira. Quando ela sabe que está certa ou que o assunto encontrou-se em pontos e ilhas que já sabe o mapa de cor, seu corpo demonstra claramente seu espírito apaixonante. Tudo acontece como num rápido içar de velas e seu corpo movimentando-se para frente. Em algum momento, um hiato, e suas costas se encostam no encosto da cadeira, nessa hora pode descansar os olhos nos meus. Quando está em silêncio, pensa - seus olhos se fixam em um ponto. Caso demore muito, os íntimos já estranham e me pergunto se encontrou alguma outra ilha, ou se foi fazer uma breve manutenção das quilhas, cabos e mastros da embarcação… ou quem sabe foi observar o belo mar mediterrâneo que compõe uma das partes de seu mundo mental. Agora, nesse momento, eu acabo de me entregar, porque quando ela para, quando a fala dela diminui o ritmo até o hiato, e enquanto tudo isso acontece com seu olhar fixo em um ponto, os meus olhos seguem todo o caminho maritmo até onde sou permitida. Entrego-me porque sempre quero ir além e tento navegar no que me foi entregue como mapa. Entrego-me porque sei que é quando a ouço que tenho a oportunidade de quase navegar na mesma caravela que ela, confiando nos ventos que ela cria, descobre, vai e volta, e também de poder sentir o cheiro de sal do mar de seu próprio oceano. Entego-me porque imagino um tanto e até certo mistério, que vai além do que ela me fala, claro. Com ela, gosto de me fingir de marinheira - quem sabe um dia posso vir a ser - mas até então não tenho nenhuma habilitação de náutica. Falei de hiatos, mas quando ela sente que pode jogar a âncora, ela fala quase sem parar - mas claramente, nada do que diz é banal. Consegue mudar os assuntos facilmente em estalar de dedos, mas acompanhar outros também que começam em outras pessoas até dar à volta na mesa. Em algum momento, por exemplo, ela muda o rumo da conversa para questões sociais; não se trata de exposição estérill, mas de uma explicação vigorosa e bastante lúcida. Sua vitalidade nos acertos e baques foi o que mais me impressionou. A mão que segura a vela, que segura o mastro, que segura o tabaco até sua boca. Senhorita T. arquitetou um mundo inteirinho em sua mente que tento acompanhar, enquanto ela veleja pelas águas à fora. 

domingo, 17 de setembro de 2023

Que besteira que nada

Caramba, dessa vez devo ter me perdido de vez mesmo.

Lendo livro de antropologia aqui em cima, no segundo andar da casa. Morri de nervoso agora pouco e não tive coragem de terminar de fumar o tabaco no banheiro do quarto de visitas. Pensando na cara de pau que eu tinha em subir e fumar um maço inteiro de cigarro quando era menor, sem medo algum de ser descoberta. Agora, tão longe isso, que nem me lembro mais se eu fumava ele inteiro mesmo ou se é conversa fiada e repetida que virou verdade. Bom, devia ser mesmo Marlboro gold ou aquele vermelho, dá no mesmo. Claro que naquela época não dava.

Me perdi porque agora sou medrosa. Como pode, né? Sentada agora ao lado do único gerbil que me sobrou nessa casa, ironicamente o único que não acho que goste de mim. E eu sem vontade de ler outros livros, por nervoso de lembrar que crio histórias enquanto leio, e isso me demora mais para ler. Não quero dor de cabeça. Acho também que não quero mesmo é enfrentar o tanto que deixei para trás, que queria ter colocado no papel. Aquela coisa, sabe, eu queria mesmo ou me enfiei num túnel besta, em que as paredes brancas tão é me assustando, mas não faço nada para pintar. Eita metáfora tonta pro óbvio. Tô longe da escrita, é isso mesmo. E, pior que isso, acabou virando metalinguagem, né? Não era a intenção. Na realidade, o que eu fico criando é história, crônica e um mundo particular.

Achei que ia parar por aqui, mas isso de medrosa me remeteu a outras lembranças, como quando minha melhor amiga me levou para uma aventura de noite e eu quis foi arregar. Quis ir embora, e ela se pôs a rir, dizendo que antes eu não faria isso. Realmente. Agora, lembrando da minha interlocutora de pesquisa, Helena, me falando da sua vida, quando um dia era punk e tinha 20 anos pela cidade de Brasília cheia de rock. Ela me disse que jurava que não ia morrer nunca. Me lembro quando ela me contou também da — agora falecida — irmã, que, quando viva, perto de morrer, gritava na cama que não queria ir embora de jeito nenhum. E foi. Que coisa, escrevo isso tudo, mas na realidade, o que suspeito é que tô medrosa e a morte é a resposta! A culpada! Ê, sai pra lá, hein.

Bom, é isso. Preciso compartilhar para esse mundo particular existir e continuar existindo por aí, fora da minha cachola. Vou ver o que posso fazer. Vamos ver.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Tantas coisas.

E meu coração querendo sair do meu corpo.

Ninguém me entende como eu mesma!
(dou uma risadinha sem graça) Olha só.

Você também deveria me entender, Diário.

Mas, para isso, preciso deixar você saber mais sobre mim. 

Você, que é vermelho —

os outros, de tantas cores e padrões, já sabem bastante.

Se personifico você, daí tenho a chance de me reapresentar.

Assim, quando somos só eu e você,

é aí que a gente se entende de verdade.
Mais do que qualquer pessoa que tente me ler.

Acho que todo escritor é um pouco assim, né?

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

29/06/2020

4 da madrugada. 

Às vezes gosto de desenhar e escrever quando me sinto desconectada de mim mesma e do que me cerca, quando assim consigo levantar o pulso com grafite na mão. A surpresa de visualizar, com outros olhares, algo que produzi cativa-me — mesmo que este conteúdo, outrora, me seja de pouco agrado e angustie-me até as pontas de meus cabelos! Posso eu ter romantizado coisas demais, que assim não deviam, durante esses poucos anos em que sinto que o grafite nunca fugiu de mim? Talvez. Mas minha cabeça nunca fugiu da minha escrita. Sei que, ao falar de algo traumático, uso bem dos eufemismos certos para dizer o que me assusta e te morde por trás dos olhos. Então, nessa hora, te agrado com minha leitura. Posso eu, aqui e agora, desconectada, talvez saber quem sou? A voz da minha cabeça me incomoda demais por estar tão fina. Não está certo! Tic-tac, tic-tac! 

Agora, de volta às minhas bagunças mentais, quem perderia tempo de entender minha letra? E eu, que já perdi tempo demais em sonhos de escritora — aqui estou, como se eu nunca tivesse mudado! Como se essas folhas na parede ainda tivessem um pouco de mim! Então, talvez tenham. E minha escrita continua a pecar bastante. Margarete e Jack continuam como um retrato de quem sou e posso ser em minha cabeça?

Sinto falta de minhas paredes brancas, da fumaça de cigarro no quarto e dos sonhos com taças cheias de vinho tinto. As metáforas ainda me constituem, e meu sobrenome combina com minhas rimas fajutas! Aqui vou-me embora. Nos encontramos em alguma folha pautada que tiver!

Camila Carvalho

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Para M

Realmente, faz muito tempo que não escrevo. Vez ou outra, algumas notas ou palavras de amor. Mas existe, sim, um certo tempo que não abro os documentos para escrever o que tem dentro de mim, muito menos dou uma olhada nas minhas paredes brancas. Mas a verdade é que não sumi, não mesmo. O processo analítico é curioso. Não esse que vem de mim por completo, que se pinta de vermelho e obsessivamente anota tudo o que pode no papel — outros momentos nas próprias pernas. Nada disso. Mas, sim, o processo de falar para outrem que pouco sei sobre, mas que escuta, dá risada, franze os olhos para enxergar melhor.

Eu achei que tinha me perdido, mas acho que só esqueci um pouco de certas coisas. Elas, porém, sempre retornam, não é mesmo? Ouço isso sempre de ti. Já outras situações parece que não voltam mesmo! De qualquer forma e sendo sincera, não quero entrar em buracos de coelho agora.

Para uma melhor visualização, estou agora sentada na sala de casa, mas antes estava dirigindo meu carro, freando onde não queria e acelerando ao ritmo da música. Tentei começar esse texto de diversas formas possíveis! Mas sempre alguém me interrompe. Não quero falar de um lugar mórbido, que, inclusive, consigo muito bem, se eu fechar os olhos — quarto, tapete, cigarro, caderno bege. Acredito que este lugar me levaria a solos (um jogo de infância que criei), romantizações estranhas, um senso de superioridade ainda não superado e sabe-se lá o que mais.

Escrevendo, agora, vou lembrando de mim mesma. Vou notando que realmente há em mim alguém que só vive no passado - mas não digo de forma vil. Também tenho os lugares em que me encontro, e que sei que em outras horas, enchem a boca para falar dele, mas, de contrário, não julgo! Afinal, qual a graça de só pensar e não compartilhar nada em um simples texto!

Minha intenção não é cruel, é apenas voltar a lembrar de mim. Não falo sobre corridas desesperadas, cigarros mentolados, um ponto claro no céu, madrugadas e tudo mais que vem do noturno. Falo do meu muro de arrimo, construído por mim mesma, que me permite sentar e ter uma visão — quase completa — do que me rodeia. Para quem não sabe, um muro de arrimo é uma estrutura feita para sustentar ou segurar o solo em locais onde o terreno é inclinado - algo sobre evitar desmoronamento. No meu, lido com alguém do outro lado. A presença de um rosto no escuro, que, um tempo atrás, esteve perto do meu olho direito, ou seja, eu o enxergava com mais nitidez. Mesmo que eu não o vejo em alguns momentos, um rosto pode ter tal forma que ecoa nos ouvidos.

A realidade é que meu muro, que eu considero bem feito (já outras pessoas, imagino, não o considerariam), continua presente. Estrutura que, na minha cabeça, parece mais de pedra do que de concreto, algo meio como as pedras de Pirenópolis, sabe? Não sei nem se isso é possível, não sou engenheira e muito menos arquiteta! Mas posso te afirmar, funciona! Eu garanto! Talvez não a longo prazo... mas com reparos, tem boa duração.

O desnível se encontra, parado entre mim, mas não no centro - tenho muito caminho para andar antes que eu tropece em alguma lasca solta na grama. Hoje você me fez lembrar de ti, de alguma forma, sentada aí, lateralmente à minha construção, bem retida em diferentes níveis do meu solo. Dessa vez, sem muita vontade de me deixar falar. Mas aqui escrevo, e espero não termos mais encontros com dor. 




Lua


domingo, 7 de fevereiro de 2021

jardim suspenso

 



Observando os canarinhos, que sempre voltam para essa casa todas as tardes e manhãs, banqueteiam-se nos comedouros repletos de sementes. Bem cedo, alguns periquitos fazem a festa, gritam e acordam todos que estejam dormindo nos quartos perto: algumas janelas dos quarto dão de frente para a árvore em que os potinhos com as sementes estão pendurados. Eles se divertem, tem uma coloração verde e com suas patinhas, se agarram nos arames, de cabeça para baixo! Adoram assustar os passarinhos menores. De grão em grão do alpiste, acabam derrubando mais da metade no chão marrom, azulejado. Assim como os pássaros, sempre estou de volta aqui — mas sempre de uma forma diferente da que saí de casa.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

 há realmente uma hora em que seus dedos urgem para teclar e escrever algo que precisa ser eternizado em palavras?

nesse momento, provavelmente, você não corre e sim, se desdobra ao máximo no que quer passar ao papel. note que eu digo algo sobre papel e teclas, já que no fim, não importa se o que você tem ao seu alcance seja um telefone ou um papel e uma caneta. o que importa é deixar sua marca, mostrar que esteve aqui. de qualquer forma, hoje, estive mais lá longe (temporalmente), em um jardim onde as flores e outras plantas, eram regadas automaticamente por um tipo de tecnologia que envolve garrafas pet reutilizadas. pegue a garrafa usada, encha de água e enfie na terra. sua planta terá sempre como beber água, desde que você continue enchendo o refil. nessa casa em que estou, não aqui (fisicamente), o terreno é ótimo de se desbravar quando os adultos bebem pinga no almoço, e você, como poucos anos tem, inventa histórias no quintal com os pássaros pretos que comem ovos enquanto piam. a terra é molhada, já que quem cuida do terreno reside em alguma cidade satélite que não seja aqui. logo, quando me perguntam onde estou, é muito fácil que eu feche os olhos e me perca onde eu realmente me encontrom fisicamente, ou já estive em algum momento. aqui o lago norte é sul, mas bem quando eu quero terminar o texto, mesmo preferindo estar ao lado norte da cidade, nos braços do meu grande amor, me perco nas risadas dos velhos que estão na mesa, bem perto da piscina. em algumas piscadas, já não há cachorros de corrida magrelos (galgos), apenas uma casa de madeira, e o que tento esquecer. tudo me trás direto ao que sempre não posso correr.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Barulho interno e Raul

 4/12/20


Agora você vê, contorna os olhos pela mesa. Seu amor te olha de relance. Qualquer movimento seu te engana, de que é aqui que não pertence. Então você se movimenta como se pudesse cortar o que houve, o que vê há mente, mas não te pertence. Externo, mas o que é que sai da sua boca? Meu Deus! Posso ficar aqui até que canse você mesma, meu fluxo inconclusivo de que não tem mais o que fazer e aproveita o momento de encontro com aquela que pensava e chegou até mim... eu! Que após ler grandiosas três páginas de Virgínia Woolf finge escrever (o que mais parecem besteiras), uma ou duas frases que não param! Olha como entorta todo fato! Aquela árvore que fora outrora esmagada pela construção de um muro feio, horroroso! Ainda levou a toca das corujas embora, sobrando apenas a casa, que eu mesma passava todo dia perto de bicicleta. Não que alguém realmente ligue. Triste fim... e eu ainda nem disse o que eu estava pensando! Bobagem! (As autoras saem de cena).


Vamos então agora mudar completamente e transformar isso aqui em um enredo. Já não entendo bem o que me acontecia antes de minha pausa. Mas este hiato veio de mim que escreve agora e não se conecta com os ruídos transferidos para este papel. Assim, então, prossigo de outra forma: 

Raul chega em casa, cambaleando, cansado. Conseguiu o material perfeito para o ofício. Duas madeirinhas que faltavam para continuar os mastros do navio, feitos com uma madeira bem clarinha. A pequena embarcação é firme e já está dentro de uma garrafa, dessas que se acha numa praia, que se encontrara, outrora, abandonada por pescadores bebuns! O bambu de 3mm é usado por Raul, que consegue enfiar os dois últimos espetos para a construção da pequena embarcação. Tudo bem colocado com a gama-cola e cola epóxi. Pouco sei sobre embarcações, mas até que conheço Raul e seus devaneios. Não se assuste se encontrar a garrafa quebrada, bem atrás da porta de seu quarto.